Logo

ISSN (On-line) 2236-6814

Publicação Contínua | Acesso Aberto

Powered by Google Translate

RELATO DE CASO

Relato Pediatr.

Visualizações

Total: 8566

Meningococcemia em lactente de 2 meses associada a todos os sinais de mau prognostico e a Síndrome de Waterhouse Friderichsen

Meningococcal in a two months old baby associated to all bad prognosis signs and to Waterhouse Friderichsen Syndrome

Cideia F. Figueiredo1; Ana P. Ynada2; Carla B. G. Goulart3; Juliana A. Sarubbi4

https://doi.org/ | Publicado em:

Resumo

OBJETIVO: Descrição de caso de meningococcemia em faixa etária não habitual, diferente daquela descrita na literatura,com complicações graves e potencialmente fatais,o que reforça a importância desse patógeno em grupos mais susceptíveis.
DESCRIÇÃO:Lactente de 2 meses,sexo masculino,negro,natural do Rio de Janeiro,residente em um único cômodo com 6 pessoas, previamente hígido, iniciou durante a madrugada quadro de gemência, febre não mensurada e abalos musculares ao manuseio. Foi trazido ao pronto atendimento pela manhã, quando apresentou um episódio de convulsão durante o exame. Internado, evoluiu com prostração, gemência, irritabilidade, taquidispnéia, respiração irregular, anúria, má perfusão periférica, lesões cutâneas difusas compatíveis com púrpura, sangramento espontâneo, desequilíbrio ácido-básico e hidroeletrolítico, com instabilidade hemodinâmica, evoluindo para óbito 15 horas após o início do quadro.
COMENTÁRIOS: Lactente apresentou quadro de meningococcemia com todos os sinais de mau prognóstico, inclusive ausência de comprometimento meníngeo.

INTRODUÇÃO:

A Neisseria meningitidis (meningococo) é um diplococo gram negativo adquirido por via respiratória1. A colonização da nasofaringe pelo meningococos geralmente leva ao estado de portador assintomático, e raramente ocorre disseminação hematogênica2. Em condições de aglomeração, as taxas de estado do portador assintomático, atingem os níveis mais altos. Caso a pessoa seja susceptível, o meningococo dissemina-se a partir do trato respiratório superior através da corrente sanguínea, desencadeando o processo de adoecimento1.

Os recém nascidos possuem anticorpos, que são principalmente Imunoglobulina G de origem materna e a partir dos 6 meses de idade há uma queda acentuada dessas imunoglobulinas, o que torna os lactentes dessa faixa etária mais susceptíveis. Contudo, a incidência mais alta da doença meningocócica ocorre dos 3 aos 24 meses1-3.

Descreve-se o caso de um lactente com 2 meses de vida, alimentado exclusivamente ao seio materno, que desenvolveu meningococcemia na ausência de sinais de irritação meníngea ou evidências laboratoriais de meningite, com evolução fulminante. O objetivo dos autores é destacar a rapidez de instalação e gravidade do quadro clínico num lactente jovem, fora da faixa etária habitual de acometimento do referido patógeno.

 

DESCRIÇÃO DO CASO:

J.V.S., 2 meses de idade, pesando 8.620 gramas, previamente hígido, procedente da cidade do Rio de Janeiro, residente em um único cômodo com outras 6 pessoas, foi atendido no serviço de pronto atendimento de pediatria do Hospital Municipal da Piedade, com queixa de febre não mensurada, prostração e gemência com 6 horas de instalação do quadro. Ao exame clínico encontravase hipoativo, hipocorado, hidratado, acionótico, anictérico, taquipnéico, taquicárdico, com fontanela anterior normotensa e exame neurológico duvidoso para irritação meníngea.

Após internação no referido nosocômio, foi colhido sangue e líquor para exames complementares, foram iniciados dexametasona, antimicrobianos, hidratação venosa, medicamentos sintomáticos e cuidados gerais, além de saturímetro e monitorização cardíaca. A punção lombar revelou líquor normotenso, com aspecto de água de rocha.

A investigação laboratorial sanguínea revelou:

  • Hemograma: hemácias 3,44; hemoglobina 8,74%; hematócrito 27,5; plaquetas 28.000; leucócitos 3.210 (0/0/0/0/12/40/30/8) granulações grosseiras nos neutrófilos;
  • Líquor: celularidade zero, bacterioscopia e látex negativo.
  • VHS: 1mm;
  • Provas de coagulação: PTT incoagulável; TAP 36,2; INR 3,4;
  • Bioquímica: sódio 123; potássio 3,3; creatinina 0,8; uréia 32; glicose 190.
  • Fosfatase alcalina 1013; TGO 48; TGP 16

Nove horas após o início do quadro apresentou crise convulsiva, tendo sido administrado anti-convulsivante com resposta satisfatória. Após dez horas dos primeiros sintomas evoluiu com petéquias, púrpuras disseminadas pelo corpo5 (Fig. 1) e hipotermia. Permaneceu anúrico e hipotenso, apesar da terapêutica adequada.

 


Fig. 1 - Lesões cutâneas purpúricas, iniciadas em menos de 12h de evolução.

 

Após 14 horas de evolução, apresentou parada cardio-respiratória irreversível às manobras de ressuscitação.

Antes mesmo da confirmação do patógeno, foi instituído a quimioprofilaxia com rifampicina para todos os contactantes domiciliares e os profissionais envolvidos.

Quarenta e oito horas após o óbito foi isolado meningococo tipo B na hemocultura.

Durante evolução do quadro, foi possível observar que o paciente apresentou todos os sinais de mau prognóstico relativos à meningococcemia descritos na literatura médica:

  • Hipotermia
  • Hipotensão
  • Púrpura fulminante
  • Convulsões'a apresentaçãos
  • Leucopenia e trombocitopenia
  • Petéquias com menos de 12 horas de internação
  • Hiperpirexia
  • Ausência de meningite
  • É importante destacar que através dos dados clínicos apresentados, pode-se caracterizar a síndrome de Waterhouse Friderichsen, desencadeada pela intensa bacteremia. Consiste em manifestações hemorrágicas intensas, especialmente em pele e mucosas e nas glândulas supra-renais (Fig. 2). Na evolução do quadro, surge um estado de choque e se estabelece uma coagulopatia de consumo (coagulação intravascular disseminada). O que ocorre é um mecanismo imuno-alérgico: uma reação do organismo à presença das endotoxinas bacterianas6.

     


    Fig. 2 - Histopatológico de glândula Supra Renal, evidenciando hemorragia decorrente da síndrome de Waterhouse Friderichsen.

     

    DISCUSSÃO:

    A doença meningocócica apresenta um curso altamente imprevisível. Antes da era dos antibióticos, a doença costumava ser fatal. Após a introdução dos antibióticos, a mortalidade geral declinou para 10 a 15 %, tendo permanecido em torno dos 10% apesar do uso precoce da farmacoterapia apropriada e dos avanços na terapia intensiva, em virtude do processo inflamatório envolvido3.

    Desta forma, o desenvolvimento da doença meningocócica ocorre quase que exclusivamente em indivíduos carentes de anticorpos protetores contra a cepa infectante.

    No relato de caso acima mostramos a gravidade e a rapidez da evolução do quadro infeccioso causada pela Neisseria meningitidis, principalmente numa faixa etária tão susceptível, como lactentes menores de 5 meses de vida7-8-9.

    O fato epidemiológico que nos chama atenção é relativo à história social, que apesar de pobre, nos sugere a existência de um portador assintomático no ambiente domiciliar.

     

    REFERÊNCIAS BILIOGRÁFICAS

    1. BCHERMAN MB, Richard E.; KLEEGMAN MB, Robert M.; JENSON MB, Hal B. .Tratado de Pediatria, 17 edição, Rio de Janeiro ed. Guanabara Koogan SA, 2004.

    2. FARHAT, Cahl Rairalla . Infectologia Pediátrica, 2ª edição, S Paulo, Atheneu, 1998.

    3. HARRISON. Principles of Internal Medicine, 14ª edição - Mograw - Hill Interamericana do Brasil, 1998.

    4. Site da FCM Unicamp: Necrose e Hemorragia da Supra-Renal no estado de choque.

    5. MEIKANE, KS; RYDEN, TB; JOHNSON, RA; BADIN, H. Dermatologia Pediátrica: Texto e Atlas, ed. Artmed, 2004.

    6. MILHEM, AR; SOVIERO, BM, Artigo da Biblioteca Digital da PUCRS.

    7. PIVA, JP; GARCIA, PR. Medicina Intensiva em Pediatria, Rio de Janeiro, Revinter, 2005.

    8. NACIEL, Flávio Eduardo. Medicina Intensiva, Rio de Janeiro, Revinter, 2004.

    9. CARCELLO, Joseph A.; FIELDS, Alan. Parâmetro de Prática Clínica para Suporte Hemodinâmica a Pacientes Pediátricos e Neonatais em Choque Séptico j. Pediat. (Rio J), 2002;78(6):449-66.

    10. MORAES, Mauro Batista; CAMPOS, Sandra de Oliveira; SILVESTRINE, Wagner Sérgio. Guias de Medicina Ambulatorial e Hospitalar - Unifesp / Escola Paulista de Medicina, ed. Serie Nestor Schor Moditora Manole, 2005.

     

     

    Hospital da Piedade - Rio de Janeiro, RJ.

     

     

    AVALIAÇÃO

    1. Em relação à profilaxia da meningococcemia podemos afirmar:

    a) é rotineiramente recomendada para toda a equipe de saúde, independentemente do tipo de contato
    b) o tratamento com penicilina é suficiente para erradicar o meningococo do orofaringe
    c) o caso-índice deve receber rifampicina antes da alta hospitalar
    d) a rifampicina é a droga de eleição na profilaxia de gestantes

    2. Sobre a vacina conjugada anti-meningococo A/C, respeitando-se os critérios epidemiológicos locais, é correto afirmar que:

    a) por falta de indução de memória imunológica aplicar somente após os dois anos de idade
    b) é aplicada em dose única, independentemente da faixa etária
    c) persistindo o risco de infecção, revacinar a cada 3 a 5anos
    d) é comum a ocorrência de hipersensibilidade

    3. Podemos afirmar que em paciente com meningococcemia apresentando artrite monoarticular:

    a. trata-se de complicação tardia, responsiva a antiinflamatórios não-hormonais
    b. caracteriza-se por efusão sinovial purulenta
    c. resulta freqüentemente em deformidade permanente
    d. recrudescência da infecção é a causa mais comum

    Preencher ficha na página 24 e enviar à SOPERJ

     

    Sobre os Autores

    Cideia F. Figueiredo1; Ana P. Ynada2; Carla B. G. Goulart3; Juliana A. Sarubbi4

    Métricas do Artigo

    2958

    Visualizações HTML

    5608

    Downloads PDF

    Conteúdo Relacionado

    Artigos dos mesmos autores:

    Ler em Português XML
    Open Access
    Compartilhar

    Como citar esse artigo:

    Cideia F. Figueiredo1; Ana P. Ynada2; Carla B. G. Goulart3; Juliana A. Sarubbi4. Meningococcemia em lactente de 2 meses associada a todos os sinais de mau prognostico e a Síndrome de Waterhouse Friderichsen. Relato Pediatr. . DOI:

    Logo

    Todos os artigos publicados pela https://residenciapediatrica.com.br/ utilizam a Licença Creative Commons