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RELATO DE CASO

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Testículos não descidos e infertilidade: uma revisão bibliográfica

Undescended testicles and Infertility: a bibliographic Review

Renata Thomaz Katzenelson; Samela Nunes Alecrim; Cibele Maria Silva; Daniela Silvestre; Pedro Izzo

Resumo

Os testículos não descidos são as anormalidades congênitas mais comuns do trato geniturinário. São classificados, em relação à ausência do testículo na bolsa testicular, como criptorquídeos, ectópicos, retráteis ou ausentes por agenesia. A etiologia ainda não está esclarecida. A descida espontânea ocorre em até três meses de idade em 90% dos casos. O tratamento para os testículos não descidos é quase sempre cirúrgico. Tal procedimento tende a minimizar possíveis danos decorrentes da exposição a altas temperaturas dos testículos fora da bolsa testicular. Para cada mês em que o testículo permanece ausente da bolsa, há uma depleção de 2% de células germinativas e de 1% de células de Leyding, o que corrobora a redução da fertilidade na vida adulta. Assim, é primordial salientar aos pais e pediatras a importância do seguimento e intervenção precoce dos testículos não descidos.

Palavras-chave: Distopia Testicular. Criptorquidia. Testículo não descido. Infertilidade.

Introdução

A distopia testicular é a anormalidade congênita mais comum do trato geniturinário. Os testículos podem ser criptorquídeos, quando estão ausentes da bolsa testicular porém localizados em seu trajeto ontogenético; ectópicos, quando estão fora do seu trajeto ontogenético; ausentes, devido a agenesia ou atrofia secundária devido ao comprometimento vascular intrauterino; ou retráteis, quando se situam na bolsa testicular, mas por reflexo cremastérico se retraem até o canal inguinal.1 Após o diagnóstico, é de extrema importância a correção da anormalidade, uma vez que o não tratamento acarreta sequelas significativas, como a infertilidade progressiva. Este artigo revisará diagnóstico, indicação cirúrgica e sequelas, com ênfase na infertilidade.2

 

Objetivo

O objetivo do presente estudo é realizar um levantamento bibliográfico de artigos publicados no PubMed, Europe PMC, de forma sistemática revisando o diagnóstico, indicação cirúrgica e sequelas com ênfase na infertilidade de pacientes com distopia testicular.

 

Discussão

A distopia testicular ocorre quando um ou ambos os testículos se encontram fora, ou mais de 50% do tempo fora da bolsa testicular. Geralmente a descida espontânea do testículo ocorre até três meses de idade em 90% dos casos nos recém-nascidos a termo, e até os seis meses de idade nos prematuros, sendo rara a descida espontânea após os seis meses. Sua incidência é de aproximadamente 3% a 5% entre os recém-nascidos a termo, sendo taxas mais altas em prematuros e/ou baixo peso ao nascimento. A etiologia ainda não está esclarecida, podendo estar relacionada a alterações endócrinas, mecânicas, genéticas ou anatômicas.3

O testículo não descido pode ser unilateral (66%) ou bilateral (10%), ocorrendo no lado direito em até 70% dos casos. Os testículos podem ser palpáveis quando localizados na região inguinal e supraescrotal; ectópicos, por exemplo, na raiz da coxa; ou retrátil e não palpáveis quando são intraabdominais, hipotróficos ou ausentes.4

Para o diagnóstico, o paciente deve ser examinado em sala com ar ambiente, posição decúbito dorsal e pernas fletidas. O escroto é observado para hipoplasia e examinado quanto à presença visível dos testículos. O primeiro passo é dedilhar o canal inguinal em direção ao escroto, empurrando estruturas subcutâneas em direção ao escroto, não devendo palpar a bolsa testicular de imediato para não estimular o reflexo cremastérico. O exame físico pode ser difícil em pacientes obesos e com cócegas.5 O complemento com exame de imagem não é recomendado, pela baixa sensibilidade.6

O tratamento para os testículos não descidos é quase sempre cirúrgico. Historicamente, a terapia hormonal foi tentada antes da cirurgia, mas não provou ser eficaz na descida testicular, sendo contraindicada pelos principais consensos e diretrizes internacionais. Alguns centros usam a terapia hormonal como adjuvante à terapia cirúrgica na tentativa de melhorar a fertilidade.7 Segundo as guidelines das Sociedades Americana e Europeia de Urologia, o tratamento cirúrgico como a orquidopexia para testículos palpáveis e exploração cirúrgica via inguinal, ou laparoscopia em testículos não palpáveis, estão indicados para todos os pacientes entre 6 a 18 meses de vida, com o objetivo de preservar o potencial de fertilização, salvo nos casos associados a hérnia inguinal, o que anteciparia a abordagem cirúrgica no ato do diagnóstico.8,9

Dentre as sequelas/complicações em relação à distopia testicular, temos: câncer de testículos (mais comum), infertilidade, traumas psicológicos e torção testicular. Um dos aspectos mais estudados é a associação da distopia ou ectopia testicular com a infertilidade, pois ao longo do tempo, tendem a causar uma série de alterações fisiológicas nos testículos, daí a importância do diagnóstico precoce.10,11

A temperatura média da bolsa testicular é de 33ºC, e quando o testículo se encontra fora da bolsa testicular, fica exposto a temperaturas mais elevadas, como na cavidade abdominal, 37ºC, e na região inguinal, 34 a 35ºC. Isso causa alterações na morfologia e nas funções fisiológicas testiculares (fibrose intersticial, redução do volume testicular, atrofia dos túbulos seminíferos e diminuição da vascularização) e acaba resultando na diminuição da espermatogênese.12

A lesão histológica do testículo não descido inicia-se a partir de seis meses de idade, e é irreversível. A partir dos dois anos, quando não corrigida cirurgicamente, há intensificação dessas alterações histológicas (atrofia tubular grave), com redução no número total de células germinativas e de Leydig.13 A postergação do tratamento cirúrgico está associada a depleção celular, que representa a perda em 2% por mês de células germinativas e de 1% por mês de células de Leyding por cada mês em que testículo permanece ausente da bolsa testicular, e um risco 50% maior de depleção de células germinativas em testículos criptorquídeos não palpáveis em relação aos criptorquídeos palpáveis.14

Faltam estudos que correlacionem a taxa de depleção de células germinativas após a orquidopexia com a diminuição da fertilidade.13,14 O acompanhamento pós-operatório deve ser realizado anualmente até o início da vida adulta.15 O seguimento com a medida do volume testicular por palpação clínica ou pelo uso de um orquidômetro são avaliações subjetivas e imprecisas. Vale lembrar que o volume testicular de testículos não descidos antes dos seis meses de idade já é menor quando comparado ao de testículos presentes na bolsa testicular.15

O espermograma deve ser realizado, depois da puberdade, para avaliar alterações histológicas e funcionais, a fim de determinar oligoespermia ou azooespermia, achados importantes para se definir eventual infertilidade.16 Deve-se sempre orientar os familiares quanto à possibilidade de infertilidade e a importância do seguimento.17

 

Conclusão

A distopia e ectopia testicular são uma doença progressiva. Por isso, deve-se salientar aos pais e pediatras a importância do seguimento e intervenção precoce em testículos não descidos. Há o risco contínuo e progressivo de perda de células germinativas e Leyding, o que corrobora para a diminuição da fertilidade.

 

Referências

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8. Radmayr C, Dogan HS, Hoebeke P, Kocvara R, Nijman R, Stein R, et al. Management of undescended testes: European Association of Urology/European Society for Paediatric Urology Guidelines. Journal of Pediatric Urology. 2016 Dec;12(6):335-43. Disponível em: doi:10.1016/j.jpurol.2016.07.014

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10. Salle, João Luiz Pippi. Criptorquia. Jornal de Pediatria. 1994;70(2):105-109.

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17. Cooper CS, Docimo SG. Undescended testes (cryptorchidism) in children: Management [Internet]. Waltham (MA): UpToDate; 2022.

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Renata Thomaz Katzenelson; Samela Nunes Alecrim; Cibele Maria Silva; Daniela Silvestre; Pedro Izzo

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Renata Thomaz Katzenelson; Samela Nunes Alecrim; Cibele Maria Silva; Daniela Silvestre; Pedro Izzo. Testículos não descidos e infertilidade: uma revisão bibliográfica. Relato Pediatr. . DOI: 10.31365/issn.2595-1769.v23i1p26-28

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